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UMA MÃE (IN)COMUM

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Ir. Carla Barbosa pm

Estamos a viver o grande mistério da Encarnação, num momento verdadeiramente incomum da nossa história. Deus vem hoje de novo aos dias incertos das nossas vidas e fá-lo, como sempre, na simplicidade, humildade e escondimento. No entanto, podemos sentir ecoar no nosso coração, perguntas como estas:

Tem sentido celebrarmos Natal e todas as festas que se seguem em circunstâncias como estas? Que terá em comum o primeiro Natal em Belém da Judeia, há mais de 2000 anos, com o Natal que nos é dado a celebrar hoje, ano 2020?Que tal convidarmos Maria para que nos ajude a responder a estas questões?

Quem melhor do que a Mãe para nos acompanhar neste caminho de adentramento no Mistério. Diria, para já, que esta é uma Mãe (in)comum, e como tal, cabe-nos fazer como as crianças pequenas que se aproximam de mansinho e sobem para o colo da mãe para, no aconchego, a escutarem com atenção. Eis o que Ela nos diz:

A minha vida foi sempre muito normal, vivia na pequena Nazaré, estava noiva de um homem bom e justo, chamado José e sobretudo acreditava no amor de Deus que se manifestava ao longo de tantas gerações e que Ele jamais deixa de cumprir as suas promessas. Como todos, também eu esperava o Salvador.

Tudo bem normal até ao dia em que o Anjo me visitou e me convidou a ser a Mãe do Messias prometido, por ação do Espírito Santo. Bem sabes como reagi. Humanamente senti medo, perguntei como seria isso, detive-me por momentos diante de algo que me ultrapassava e para o qual me sentia pequena. Mas a confiança e a graça da fé, que são puros dons de Deus, invadiram-me e fizeram com que a minha resposta livre fosse somente FIAT. Então o “Verbo fez-se carne” em mim. Estava tudo ali, nesses instantes verdadeiramente incomuns da minha história.

Daí em diante, voltou tudo à normalidade. Contei a José que, após a surpresa inicial, também ele recebeu a visita do Anjo e acolheu comigo o Mistério de Deus. A minha gravidez em tudo semelhante à de outras mulheres, ainda me deixou fazer uma visita à prima Isabel que esperava também um filho. Senti que deveria ir apressadamente para lá. Não tenho dúvidas que foi Aquele que já morava no meu seio me impulsionou a correr ao encontro de quem mais precisava.

Tudo volta a alterar-se quando, a poucos dias do nascimento do Menino, nos é pedida uma grande viagem para o recenseamento em Belém. Lá fomos, eu e José, numa viagem longa e dura e, como se não bastasse, ao chegar, não havia lugar para nós nas hospedarias. Apesar da estranheza de tudo isto, jamais sentimos necessidade de nos fazermos valer da certeza de que eramos uma família (in)comum. Acolhemos simplesmente as circunstâncias que nos eram dadas a viver, não como uma fatalidade, mas antes como mais uma confirmação de que o Deus das nossas vidas respeita a liberdade do ser humano e os condicionalismos históricos. Ele age sempre na simplicidade, sem força, nem violência. E foi no lugar mais simples e humilde, onde materialmente nos faltava quase tudo, que dei à luz o Filho de Deus. O meu pequenino Jesus era um bebé comum, perfeitamente normal. Embora tudo o que o rodeava fosse tremendamente incomum. Encontrou como berço a manjedoura, como calor, o bafo dos animais, como primeiras visitas, os pobres pastores. Depois vieram também os Magos do Oriente com os seus presentes, também eles sinais do que estava por vir.

Para proteger e salvar o nosso Jesus, que é acima de tudo o Filho de Deus, tivemos de partir de novo, desta vez para o Egito. Não pensem que soubemos e compreendemos tudo, desde o começo, não. Deus foi-nos ensinando e mostrando, pouco a pouco, a sua vontade e a nós coube-nos a missão de acolher na alegria e silêncio do coração o seu projeto de amor. Eu e José não dizíamos muito, apenas escutávamos, contemplávamos, o Mistério que se desenrolava diante dos nossos olhos de uma forma tão (in)comum.

Hoje parece-me que a humanidade experimenta algo de semelhante: aprender a descobrir, a intuir, a contemplar a grandeza de Deus na fragilidade de um Menino que toma o rosto de tantos e tantos irmãos ao nosso redor. As circunstâncias também incomuns deste tempo, não podem, nem devem apagar, a força da certeza de que, por mais estranho que tudo pareça, há um sentido para tudo, conhecido por Deus e revelado pouco a pouco a cada um de nós.

Ao aproximar-se o início de um novo ano, saibamos nós também cultivar a atitude que tornou Maria, esta Mãe (in)comum. Que Ela nos acompanhe e conduza em todos os momentos que nos são dados a viver. Maria Rivier costumava dizer: “Vamos sempre a Jesus por Maria e por José. Procuremo-Lo também durante este santo tempo no presépio onde Ele repousa, na pobreza, na humildade e nos sofrimentos. Maria escutava tudo com atenção: todas as palavras que vinham da parte de Deus, todas as maravilhas que via e todos os mistérios que se operavam sob os seus olhos.

Peçamos à Santíssima Virgem que nos permita tomar Jesus nos nossos braços, e de metê-lo no coração, a fim de o purificar e de o abrasar no Seu amor”. Que assim seja, hoje, amanhã e sempre.

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